Para os povos primitivos, quando algo não dava certo, apelava-se aos deuses, sacrificando animais e até mesmo pessoas para aplacar a ira de seus deuses. O povo hebreu adotou esta prática e desenvolveu uma complexidade de ritos, como se encontra explicitado no livro do Levítico. Assim, quando o povo pecava, os sacerdotes sacrificavam uma vítima – bois, cordeiros, cabritos, aves – como expiação de sua infidelidade. Retornava-se assim a paz. Já os cristãos crêem que Jesus tornou-se o cordeiro que tomou sobre si todos os pecados.
Nossa sociedade tecnológica, não obstante todos seus avanços, ainda necessita de vítimas expiatórias. A Síntese de Indicadores Sociais do IBGE divulgou semana passada que há 2,1 milhões de crianças entre 7 e 14 anos no país que, embora freqüentem a escola, continuam analfabetas. Alarde geral! De quem será a culpa? Vamos à lei. Segundo a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação), “a educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais.” (Art. 1º) O artigo 2º prossegue afirmando que “a Educação [é] dever da família e do Estado”
Pois bem, o texto é claro. A educação perpassa toda a sociedade, especialmente a família, o Estado e as instituições de ensino. Se o resultado não está dentro do esperado, presume-se que todos devam repensar suas atitudes, assumir suas culpas, e buscar novas ações. Vamos então aos envolvidos.
Quando eu era aluno, todo mundo sabia que quem repetia de ano não havia estudado. Ai de mim se falar isso hoje. A culpa não pode ser do aluno. Ele vai ficar traumatizado. Vivemos em um novo tempo. O estudante é o centro do processo educativo. Ele recebe os livros de graça, além do caderno, da caneta, do lápis, da borracha, da régua, da blusa, do tênis, da merenda... E ao professor cabe o ensinar. Deveres? Esse capítulo ainda não lhes foi ensinado, talvez no próximo ano.
Passemos à família. Atire a primeira pedra quem nunca ficou de castigo ou levou aquela bronca: “Desligue a TV e vai fazer sua lição!” A LDB é clara: a educação é dever da família. Já matriculei meu filho, e se ele não for na escola, não ganho minha Bolsa Família. Culpar a família? De jeito nenhum, perderemos os votos...
Dever do Estado, então! Como? Todos os recursos estão sendo repassados, e nunca na história deste país investiu-se tanto, aferiu-se tanto a educação. As práticas do governo só têm ajudado a criar pessoas responsáveis, particularmente as máquinas de camisinhas nas escolas.
Tragam os bois! Para nós, sacrifícios de animais soam tão grotescos. Porém, para os antigos, além do valor simbólico e religioso, entrava em cena a questão econômica. Oferecer bois para o sacrifício custava muito, anos de trabalho duro; o sacrifício doía mais no bolso dos fazendeiros do que nas tripas dos bodes e cordeiro.
Tragam os bois! Já que não há mais ninguém para sacrificar, vamos aos docentes. Eles não hão de reclamar! Durante anos, ensinamos em suas faculdades as mais modernas teorias pedagógicas, particularmente as mais liberais, e desprezamos os métodos tradicionais. Desacreditamos as avaliações objetivas, e os professores acreditaram em nós. Agora, contudo, toda educação é cercada por avaliações bem objetivas. É verdade, os professores necessitam de melhor formação. Sacrifiquemo-los!Retorna-se assim a paz. Cuidado, o preço pode ser muito alto.