segunda-feira, 6 de abril de 2009

Água Viva

Irrompem as chuvas mais um outono

Encharcam as folhas mortas do esgoto

Do meu peito, com medo, pesar, sono.

Água na pedra, vinho em saco roto.

Esta água seca não me sacia.

Esta água estéril as minhas flores

Sufoca. Água morta de bacia

Que sangra, arde, pisa minhas dores.

Um dia tu me ofereceste água

Viva. Surdo, cego e mudo, não cri.

Afundei-me em um mar de mágoa.

No dia mais cruel do ano eu vi:

Espada no peito, sangue e água.

Contigo renasci num Domingo de Páscoa!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Quatorze

Nosso amor é como o marfim
Após um duro começo
E lutas sem fim
Construímos sobre a rocha
Nossa casa, nosso jardim.
Como José que a Maria
Pronunciou o seu sim
Como Maria a José
Amar-te-ei até o fim.
Louvemos ao Senhor
Com os santos e os querubins
Uma grande aclamação
Com tambores, violão e bandolim,
No ar exalando seu perfume
favorito - jasmim!
Alegremo-nos, pois Ele nos uniu
Eu a você; você a mim.

domingo, 28 de setembro de 2008

TRAGAM OS BOIS!

Para os povos primitivos, quando algo não dava certo, apelava-se aos deuses, sacrificando animais e até mesmo pessoas para aplacar a ira de seus deuses. O povo hebreu adotou esta prática e desenvolveu uma complexidade de ritos, como se encontra explicitado no livro do Levítico. Assim, quando o povo pecava, os sacerdotes sacrificavam uma vítima – bois, cordeiros, cabritos, aves – como expiação de sua infidelidade. Retornava-se assim a paz. Já os cristãos crêem que Jesus tornou-se o cordeiro que tomou sobre si todos os pecados.
Nossa sociedade tecnológica, não obstante todos seus avanços, ainda necessita de vítimas expiatórias. A Síntese de Indicadores Sociais do IBGE divulgou semana passada que há 2,1 milhões de crianças entre 7 e 14 anos no país que, embora freqüentem a escola, continuam analfabetas. Alarde geral! De quem será a culpa? Vamos à lei. Segundo a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação), “a educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais.” (Art. 1º) O artigo 2º prossegue afirmando que “a Educação [é] dever da família e do Estado”
Pois bem, o texto é claro. A educação perpassa toda a sociedade, especialmente a família, o Estado e as instituições de ensino. Se o resultado não está dentro do esperado, presume-se que todos devam repensar suas atitudes, assumir suas culpas, e buscar novas ações. Vamos então aos envolvidos.
Quando eu era aluno, todo mundo sabia que quem repetia de ano não havia estudado. Ai de mim se falar isso hoje. A culpa não pode ser do aluno. Ele vai ficar traumatizado. Vivemos em um novo tempo. O estudante é o centro do processo educativo. Ele recebe os livros de graça, além do caderno, da caneta, do lápis, da borracha, da régua, da blusa, do tênis, da merenda... E ao professor cabe o ensinar. Deveres? Esse capítulo ainda não lhes foi ensinado, talvez no próximo ano.
Passemos à família. Atire a primeira pedra quem nunca ficou de castigo ou levou aquela bronca: “Desligue a TV e vai fazer sua lição!” A LDB é clara: a educação é dever da família. Já matriculei meu filho, e se ele não for na escola, não ganho minha Bolsa Família. Culpar a família? De jeito nenhum, perderemos os votos...
Dever do Estado, então! Como? Todos os recursos estão sendo repassados, e nunca na história deste país investiu-se tanto, aferiu-se tanto a educação. As práticas do governo só têm ajudado a criar pessoas responsáveis, particularmente as máquinas de camisinhas nas escolas.
Tragam os bois! Para nós, sacrifícios de animais soam tão grotescos. Porém, para os antigos, além do valor simbólico e religioso, entrava em cena a questão econômica. Oferecer bois para o sacrifício custava muito, anos de trabalho duro; o sacrifício doía mais no bolso dos fazendeiros do que nas tripas dos bodes e cordeiro.
Tragam os bois! Já que não há mais ninguém para sacrificar, vamos aos docentes. Eles não hão de reclamar! Durante anos, ensinamos em suas faculdades as mais modernas teorias pedagógicas, particularmente as mais liberais, e desprezamos os métodos tradicionais. Desacreditamos as avaliações objetivas, e os professores acreditaram em nós. Agora, contudo, toda educação é cercada por avaliações bem objetivas. É verdade, os professores necessitam de melhor formação. Sacrifiquemo-los!Retorna-se assim a paz. Cuidado, o preço pode ser muito alto.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Para quem tem fome!

Em nossos tempos de junk food, o alimento tornou-se uma das maiores causas de morte. Nos EUA, pelo menos, a obesidade é a segunda causa de morte por causas controláveis após o fumo. Como reação a esta epidemia de fast food, estamos nos conscientizando e buscando nos alimentar (e viver) de forma mais saudável.

Será que estamos fazendo o mesmo com nossas mentes e espíritos? Como estamos alimentando nossas mentes? Pelo que vemos por aí, o que a maioria das pessoas lê se refere ao que chamamos de leitura de informação - jornais, revistas, e seus afins eletrônicos. Infelizmente, além de só oferecerem fatos, distorcem-se as realidades e superficializa-se tudo. Sem contar com a tendência de a mídia se tornar um grande tablóide - escândalos, sexo e violência. Pouco do que lemos nos edifica verdadeiramente levando à reflexão e à transformação. Temos pouco "prazer do texto", como disse Barthes. Não estamos nos tornando mais sábios nem mais felizes.

E o nosso espírito? Está mais faminto que os mendigos das praças. "Virão dias em que enviarei fome sobre a terra, não uma fome de pão, nem uma sede de água, mas de ouvir a Palavra do Senhor." Am8,11 Sim, o próprio Jesus afirmou no deserto da tentação: "Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus." Mt4,4 E se percorrermos as Escrituras, veremos que há várias metáforas com alimento para a Palavra:
  • "Toma e devora-o! Ele te será amargo nas entranhas, mas na boca doce como o mel." Ap10, 9
  • "Vossos preceitos são as minhas delícias." Sl 118,24
  • "Se me ouvis, comereis excelentes manjares, uma suculenta comida fará vossas delícias." Is 55, 2
Toda esta reflexão me acometeu quando lia Provérbios 30, 5: "Toda a palavra de Deus é provada." Pensei então no sentido de provada aqui não como testificada, mas como experimentada. Provamos tantas coisas; nossos paladares são tão desenvolvidos e apurados, e o nosso coração? Sabe provar, experimentar, devorar a Palavra? Ou será que nossos corações estão pesados por excesso do comer, excesso de informações inúteis, excesso de preconceitos, excesso das leituras deste mundo?(cf. Lc 21,34)

domingo, 21 de setembro de 2008

Somos (também) simples trabalhadores da vinha

A leitura do Evangelho deste domingo mostra que Deus está chamando a cada um de nós para trabalharmos em sua vinha, isto é que não fiquemos ociosos e assumamos nossa missão de evangelização no mundo.
Lendo esta passagem, lembrei-me que o Papa João Paulo II escreveu a encíclica Christifidelis Laici baseada nesta parábola. O nosso saudoso papa afirmava: "Ide vós também. A chamada não diz respeito apenas aos bispos, aos sacerdotes, aos religiosos e religiosas, mas estende-se aos fiéis leigos: também os fiéis leigos são pessoalmente chamados pelo Senhor, de quem recebem uma missão para a Igreja e para o mundo." CL1
O mais interessante neste ensinamento do papa peregrino é acerca do local da missão dos leigos: o mundo, "Temos pois de encarar de frente este nosso mundo com os seus valores e problemas, as suas ânsias e esperanças, as suas conquistas e fracassos, (...) è esta a vinha, é este o campo no qual os fiéis leigos são chamados a viver sua missão."CL3
Nós, os leigos somos ungidos no batismo e participamos da missão sacerdotal, profética e real do próprio Jesus. É em nossas vidas que construímos o Reino de Deus. "E deste modo, os leigos, agindo em toda a parte santamente, como adoradores, consagram a Deus o próprio mundo."CL13

Portanto, o chamado de hoje é ouvirmos a voz de Deus que chama a todos. Só assim poderemos sair de nossa passividade e nos tornar simples trabalhadores da vinha do Senhor, como se apresentou nosso querido Papa Bento XVI em sua primeira aparição como Pontífice.